sábado, 17 de novembro de 2012

"Destino" de Almeida Garret

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta — «Floresce!» —
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

domingo, 4 de novembro de 2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Ode Marítima - Álvaro de Campos

Ode Marítima Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,

Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui... (Incompleto)

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pessoa...

«Eu proprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas colleantes paginas fóra, realmente existe ou é apenas um conceito esthetico e falso que fiz de mim-proprio. Sim, é assim. Vivo-me estheticamente em outro. Esculpi a minha vida como a estatua de materia alheia a meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me puz a mim, e tão de modo puramente artistico empreguei a minha consciencia de mim proprio. Quem sou por detraz de esta irrealidade? Não sei. Devo ser alguem»

Fonte: Livro do Desasossego, II, 305, p.38. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Natal com Arte: Um Alimento para a Alma

Virão certamente tempos ainda mais difíceis. Todos sabemos. Numa época em que os valores estão, também eles em crise,… deixando-nos a todos nauseados, sem esperança, sem pão…. Mais pobres certamente… mas há coisas que não nos podem tirar… são elas: a Alma, a Dignidade, o Sentimento, a Palavra – “riquezas” que por mais que tentem não se conseguem abolir.


E foi nesta linha de raciocínio que o "Pai Natal" Vollenweider atuou, com a sua perspicácia, inteligência e sensibilidade, presenteando-me com Alimento para a Alma.
 Já dizia a sábio e visionário Voltaire, “A alma é uma fogueira que convém alimentar, e que se apaga dado que não se aumente”

Muito obrigada pelo teu Amor, Apoio e por todo este Alimento (que bem vou precisar).

A Nova História da Arte de Janson - por H.W Janson (nona edição);












Man Ray - por Guido Comis, Marco Franciolli












Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português - por Fernando Cabral Martins












Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos - por Mário Cesariny









Pessoa Revisitado - por Eduardo  Lourenço


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Náusea

É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça. Tanto que escrevi acerca dela!Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja. Foi a partir do célebre dia em que quis fazer ricochete com a pedra na água. Ia lançá-la, olhei para ela, e foi então que tudo começou: senti que a pedra existia. E depois, a partir de então, houve outras Náuseas; de vez em quando os objectos põem-se a existir na nossa mão (...)

Jean-Paul Sartre

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Hino ao Sol do Faraó Akhenaton

“Como é bela tua aurora no horizonte do céu,
Ó Aton vivo, iniciador da vida!
Quando te ergues no Oriente,
Enches o universo de tua beleza.

És belo, grande, brilhante, alto acima da terra,
Teus raios envolvem a terra e tudo que criaste.

És Rá e os tem todos cativos;

Uniste todos pelo teu amor
Embora estejas longe, teus raios estão sobre a terra;

Embora sejas alto, os rastros de teus passos são o dia.

Quando repousas no horizonte ocidental do céu,

A terra está na obscuridade como a morte;
As pessoas dormem em seus quartos,
Envolvem a cabeça,
Suas narinas param de funcionar,
Ninguém vê seu vizinho,
Tudo o que lhes está sob a cabeça pode ser roubado.

E não sentem.
Estão os leões saem de seu covil,
As serpentes picam...
O universo esta em silencio,
Aquele que o fez repousa no horizonte. (...)”

Do Livro de J.H. Breasted, THE DEVELOPMENT OF RELIGION AND THOUGHT IN ANCIENT EGYPT.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

sem título, 1933 - Versão experimental para a capa de "Photographs by Man Ray 1920-1934" com elementos surrealizantes

Coat-stand", 1920 - Man Ray

domingo, 9 de outubro de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011



"A música é ao mesmo tempo a mais maravilhosa e a mais viva de todas as artes - é a mais abstracta, a mais perfeita, a mais pura - e a mais sensual. Oiço com o meu corpo e é no meu corpo que se desperta o desejo em resposta ao entusiasmo e à emoção incorporado nesta música. É o «eu» físico que sente uma dor insuportável - e depois uma ânsia fátua - quando um mundo inteiro de melodia resplandece e depois cai como uma cascata na segunda parte do primeiro andamento - é carne e osso que morre um pouco cada vez que sou engolida por este anseio do segundo andamento"

Susan Sontag - Renascer

sábado, 2 de outubro de 2010

Robert Schumann's Carnaval, performed by Evgeni Kissin



Tive o privilégio de ouvir pela primeira vez no grande auditório da Fundação e Museu Calouste Gulbenkian - no âmbito do Festival Mozart - o genial, o brilhante, o maravilhoso e o  majestoso pianista russo Evgeni Kissin.
Ouvi-lo foi simplesmente apaixonante! Adorei, mesmo!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Der Himmel Über Berlin


A criança, quando criança,
caminhava de braços caídos,
queria que o ribeiro fosse um rio,
o rio uma torrente e este charco, o mar.
A criança, quando criança,
não sabia que era criança,
tudo para ela tinha alma
e todas as almas eram uma só.
A criança, quando criança,
não tinha opinião sobre nada,
não tinha hábitos,
sentava-se de pernas cruzadas,
de repente desatava a correr,
tinha um remoinho no cabelo
e não fazia caretas
quando era fotografada.



sexta-feira, 2 de julho de 2010

Extrato interessante do livro que estou a ler

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.


Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo diferente e praticamente quase inabitável. Os filósofos, para poderem estudar a realidade pura, submetem-na quase às mesmas transformações a que o fogo ou o pilão submetem os corpos: coisa alguma de um ser ou de um facto, tal como nós o conhecemos, parece subsistir nesses cristais ou nessas cinzas. Os historiadores apresentam-nos, do passado, sistemas excessivamente completos, séries de causas e efeitos exactos e claros de mais para terem sido alguma vez inteiramente verdadeiros; dispõem de novo esta dócil matéria morta, e eu sei que Alexandre escapará sempre mesmo a Plutarco. Os narradores, os autores de fábulas milésias, não fazem mais, como os carniceiros, que pendurar no açougue pequenos bocados de carne apreciados pelas moscas. Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.

in "Memórias de Adriano" por Marguerite Yourcenar

quinta-feira, 24 de junho de 2010


Escrita por Ary dos Santos no final de 1972. Música e interpretação de Fernando Tordo. Concorreu ao Festival da RTP de 1973 onde obteve o 1º lugar.

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.
Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.
Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.
Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.
Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro aos milhões.
E diz o inteligente
que acabaram as canções.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

«Começamos a ser o que somos no dia em que nascemos» in José Saramago

 Paz à sua alma!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Louise Bourgeois (Paris, 25 de Dezembro 1911 - Nova Iorque, 31 de Maio de 2010)

Soube agora, através do Centre Pompidou que a artista plástica franco-americana Louise Bourgeois (autora da aranha "Maman") faleceu esta segunda-feira em Nova Iorque, com 98 anos de idade. Paz à sua alma!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ma Cos'è Questa Crisi?



Ora aqui está uma canção muito actual.
Há canções que têm uma magia inerente que nos faz amá-las apaixonadamente logo na primeira audição.
Esta música datada de 1933  trouxe boa sorte ao seu autor e intérprete, Rodolfo de Angelis, também conhecido como um actor, pintor e poeta.
Nestes tempos de incerteza económica extrema e cheia de sinistras perspectivas políticas parece que esta canção "mas que esta crise?" encaixa na perfeição.
 
post scriptum: "Qualquer coincidência é pura semelhança!"